Editorial

Revista Linha Mestra – Ano X. No. 30 (set.dez.2016). ISSN: 1980-9026

Nas dobras do (im)possível

Davina Marques
Marcus Pereira Novaes
Adriana Lia Friszman de Laplane

A difusa fronteira que separa o sonho e a realidade é um chão fértil…
José Eduardo Agualusa

O 20º Congresso de Leitura do Brasil (COLE), com o tema nas dobras do (im)possível, propôs pensarmos a leitura como abertura a infinitas possibilidades de compreensão e intervenção no mundo. Nas dobras, algo desperta e surge como um cintilante brilho, algo se projeta como um desdobramento de algo vivido, algo entre sentir e experimentar.
Desejante de socializar sonhos, de in-ventar ideias, de pensar-se para além do possível, a diretoria da ALB apresentou aos conferencistas esta nova edição do congresso. Com a epígrafe do angolano José Eduardo Agualusa, destacamos a difusa fronteira existente entre o sonho e a realidade, lembrando, com o autor, que esse chão é fértil. Nas nossas tantas tarefas cotidianas, nem sempre reservamos o tempo necessário para re-inventar nossas vidas, re-ver práticas. Em outros momentos, é exatamente isso que nos move.
Promovemos o encontro com autor@s, pesquisador@s e artistas. Lembramos outro escritor angolano, Ondjaki, com suas bicicletas de bigodes, suas escuridões bonitas, suas meninas de tantas tranças, suas poetagens e suas escrituras, para lembrar o que ainda não foi contado, explorando o universo da leitura a partir de um olhar atravessado pelo sonho, pela criação, pelo irreal, pela possilibidade de alcance daquilo que ainda não é, daquilo que está em potência, ainda perdido na densidade poética da nuvem – nas palavras desse prosador-poeta.
Consuelo de Paula nos dá a pista: mesmo mar, olhos iguais, um olho só, um grande cais. Para inspirar as dobras dos nossos (im)possíveis, desejamos promover potentes encontros com a poesia, o pensamento acadêmico e produções literárias indígenas e afro-brasileiras em nossas conferências e mesas, pensamentos para além do já instituído na linguagem. Ou, de outro modo, o COLE buscou proporcionar experiências em que a linguagem pudesse ser, de certo modo, desobedecida. Se a linguagem não desobedecesse e se não fosse desobedecida não haveria filosofia, nem arte, nem amor, nem silêncio, nem mundo, nem nada, lembra-nos Carlos Skliar. Que encontro melhor poderia haver do que este da experimentação com as palavras nas suas camadas que constroem e apagam significados e lançam a língua a cintilar em movimentos de criações enunciando mundos em que as diferenças possam coexistir?
O nosso cotidiano de amantes da leitura tem sido marcado por atravessamentos nem sempre tão potentes. Gostaríamos que a leitura e literatura pudessem funcionar como uma flecha e atingir o coração e a cabeça das pessoas, com Daniel Munduruku, e assim pudessem reverter um pouco o olhar sobre situações de exclusões e sobre a retirada do direito da fala de minorias, pois muitas coisas ainda precisam mudar e o horizonte, neste momento, parece obscuro e temeroso.
Os caminhos precisam ser outros, […] a prática de leitura […] precisa ocorrer num espaço de maior liberdade possível, lembramos com Marisa Lajolo. É preciso deixar registrado o compromisso da Associação de Leitura do Brasil com movimentos de resistência aos rumos que interesses contrários à democracia e à soberania do voto popular promoveram no país neste ano de 2016. O efeito desses interesses pode ser sentido nas ameaças recentes às políticas públicas de saúde e de educação, na previdência social e na legislação trabalhista. Essas ameaças recaem, principalmente, nos setores mais vulneráveis da sociedade. As reações a essas investidas contra direitos que sequer chegaram a consolidar-se na nossa desigual sociedade são muitas e diversas. Estudantes e professor@s resistem, assim como trabalhador@s de diferentes setores e movimentos sociais. Apesar de cortes nos financiamentos e das políticas que exigem cada vez mais produções d@s pesquisador@s e educador@s, também resistimos. Fomos obrigados, por diversos motivos, a reavaliar o tamanho do congresso. Mesmo com essa redução, o evento recebeu quatro conferências, 15 mesas-redondas e 79 sessões de comunicação com 461 trabalhos aprovados pelo nosso grupo de avaliadores, representando a produção de quase mil congressistas. Além disso, nas sessões especiais tivemos as Perspectivas da Leitura no Brasil e a Sessão Especial Comemorativa 20° COLE. O congresso trouxe ainda a oferta de 22 minicursos aos seus participantes, exposições e a Mostra Kino de Cinema.
Os participantes com trabalhos aprovados e apresentados no 20º COLE submeteram seus textos a publicação neste número da Revista Linha Mestra, que temos o prazer de aqui apresentar.
Desejamos boa leitura e que juntos inventemos nossos tempos possíveis!

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